Passeio e Passagem, preste bem a atenção a esta história de dois bois

A expressão dar “nome aos bois” tem um sentido. Quem já teve a oportunidade de lidar com gado sabe bem disso. O boi não só tem nome como se acostuma e gosta de ser chamado por ele. Todas as vezes que ouço a expressão “é preciso dar nome aos bois” lembro-me de Rosca Seca, um aprazível lugarejo dos rincões de Minas Gerais, no município de Aimorés, cidade fronteiriça com o Espírito Santo. Ali eu nasci e comecei a trabalhar com 8 anos de idade. Meu primeiro trabalho foi ser candeeiro de bois. Naquela época na minha região não existia outro meio de transportes que não fosse de tração animal. Também não havia energia elétrica e a iluminação se fazia com lamparinas e lampiões.

Meu trabalho era bastante interessante e eu gostava de executá-lo. Levantava da cama por volta das 5 horas da manhã e ia ligeiro buscar os bois no pasto. Esta era a primeira tarefa do dia. Logo depois, os bois eram atrelados à canga e partíamos em busca da mercadoria a ser transportada, que podia ser cana, feijão, arroz, milho, etc. Duas pessoas coordenavam os trabalhos dos bois. O carreiro, que era o adulto, geralmente ia dentro do carro, e o menino, que ia à frente dos bois. Para o carreiro, era importante fazer o carro “cantar”. A técnica para isto era passar um chumaço de pano com querosene no eixo do carro para aumentar o atrito.

Normalmente o carro de bois trabalhava com quatro juntas, ou seja, com oito bois posicionados dois a dois, ligados por uma canga. Todos tinham nomes. Alguns até nomes engraçados ou bem colocados, que tinham muito a ver com eles. Os que iam na frente, eram chamados “bois de guia”, porque a eles cabia guiar o comboio. Era só seguir o menino, o candeeiro, que tudo dava certo. Os bois de guia eram muito parecidos uns com os outros. Bois bem aparelhados, como se dizia na linguagem da época. Um se chamava Passeio e o outro Passagem.

O Passeio tinha um ritmo de trabalho constante, uniforme. Da origem ao destino, mantinha sempre a mesma cadência. Trabalhava bem, discretamente. Já o Passagem, ao contrário, iniciava bem o trabalho, mostrando-se muito disposto no início, mas volta e meia fazia “corpo mole”, exigindo muito mais atenção do carreiro. De vez em quando, parava para saborear algum capim gordura mais tenro que estivesse visível à beira da estrada. Quando isto ocorria, o carreiro dava-lhe uma ferroada e o boi pulava rápido para frente, e só não pisoteava o candeeiro se ele estivesse atento.

De 8 aos 12 anos este era o meu trabalho, executado com chuva ou com sol. Porém, havia uma particularidade digna de registro e que nunca saiu de minha memória: quando o comboio estava chegando ao destino e a sede da fazenda era avistada, o Passagem colocava toda a sua força no trabalho de puxar o carro, chegando até a desequilibrar, a seu favor, a harmonia da dupla. Esta particularidade valeu-lhe o apelido de “boi de chegada”. A idéia que passava era a de que, no final, andando mais rápido, ele folgaria mais cedo.

O Passeio continuava no seu ritmo normal. Não alterava, nem para mais nem para menos, a sua contribuição, mas era bom de serviço. Um dia, ao chegarmos com o carro de bois carregado de milho, notamos a presença de um fazendeiro vizinho que fora visitar meu pai e que observava a nossa chegada. Ao ver a disposição do Passagem, puxando com mais força do que o Passeio e chegando na frente, o nosso visitante exclamou, apontando para o esperto boi de chegada: “Que maravilha! Se o outro fosse assim!”

Esta foi sem dúvida a primeira injustiça do trabalho que presenciei. Porém, só fui compreender o significado dela quando, anos depois, ingressei no mercado formal de trabalho. Em uma grande empresa pude ver, muitas vezes, aquela cena se repetir.

Alguém trabalhando muito, o tempo todo, e outros aparecendo, mostrando-se como se fossem eles os autores das idéias e dos trabalhos elogiados. Aprendi que os erros de avaliação no trabalho nas empresas são decorrentes do mesmo fato que ocorreu no episódio do Passeio e Passagem. O julgamento superficial feito pelo avaliador, sem um acompanhamento contínuo e sistemático das atitudes, do comportamento e do desempenho do avaliado.

Trabalhei por 25 anos em um grande grupo empresarial onde tive a oportunidade de ver, em várias ocasiões, o ressurgimento dessas duas figuras inesquecíveis: o Passeio e o Passagem. Alguém trabalhando muito, fazendo tudo certo e com menor prestígio do que aqueles que aparecem mais, se expressam melhor ou se aproximam mais de quem tem poder sobre as pessoas. Nesses 25 anos, tive uma gratificante relação de emprego – de servente a superintendente – com meu empregador. Pude perceber que nas organizações também se cometem injustiças e que o “vizinho” pode influenciar as decisões do chefe. A grande diferença é que os “Passeios” e os “Passagens” das empresas são seres humanos que guardam ressentimentos e mágoas. Os bois não reclamam.

Mensagem recebida via e-mail
** O escritor desta mensagem, Carlos Pessoa dos Santos, começou no grupo Petrobrás como office boy e chegou ao topo da carreira executiva no cargo de Superintendente. Venceu grandes desafios sem jamais perder a humildade.

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